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Kleiton Kretzer
📂 Liderança e Cultura Lean 🔗 BPM + Lean ⏱️ 12 min de leitura

A pior fábrica da GM virou uma das melhores do mundo. Com os mesmos funcionários.

Em 1982, a General Motors fechou sua fábrica de Fremont, na Califórnia. Não foi uma decisão difícil. Fremont tinha a reputação de ser a pior unidade da GM nos Estados Unidos: absenteísmo na faixa dos 20%, paralisações não autorizadas, problemas com álcool e drogas dentro da linha, e uma relação entre sindicato e gestão tão hostil que histórias de sabotagem (peças soltas dentro de portas, parafusos trocados de propósito) circulavam como lenda interna.

Dois anos depois, a mesma fábrica, o mesmo prédio, reabriu como NUMMI (New United Motor Manufacturing Inc.), uma joint venture entre GM e Toyota. A Toyota recontratou cerca de 85% dos antigos funcionários, incluindo boa parte da liderança sindical que a GM considerava mais “problemática”. Em pouco mais de um ano, a planta passava a figurar entre as mais produtivas e com melhor qualidade de todo o sistema GM, próxima dos números das próprias fábricas da Toyota no Japão.

Essa história costuma ser contada como prova de que “o sistema Toyota funciona em qualquer lugar”. É verdade, mas é a metade menos interessante. A parte que vale a pena estudar é a outra: o que quase deu errado, e o que a liderança da Toyota fez, dia após dia, para que não desse.

Jeffrey Liker dedica boa parte de The Toyota Way (2004) ao caso NUMMI porque ele é, até hoje, o experimento mais limpo que existe sobre o assunto: o produto era o mesmo (carros), a fábrica era a mesma, o sindicato era o mesmo, as pessoas eram, em grande parte, as mesmas. A única variável que mudou foi como a liderança se comportava. Para quem estuda BPM e CBPP, é praticamente um experimento controlado sobre o domínio de Organização e Cultura do CBOK v4.0: o que sustenta (ou não) qualquer mudança de processo depois que o projeto termina.

A fábrica que a GM queria esquecer

Antes de 1982, Fremont operava no manual clássico da indústria americana da época: supervisores davam ordens, trabalhadores executavam, e qualquer problema na linha era resolvido empurrando a peça com defeito para o fim da fábrica, onde uma área enorme de retrabalho corrigia tudo antes da expedição. Parar a linha de montagem por qualquer motivo era praticamente proibido. Quem causasse uma parada não programada corria o risco de ser advertido, não elogiado.

O resultado era previsível. Trabalhadores que não tinham nenhuma influência sobre como o trabalho era feito, e nenhuma confiança de que sugerir algo traria benefício pessoal, simplesmente deixavam de se importar. O absenteísmo de quase 20% não era um problema isolado: era o sintoma mais visível de uma cultura inteira de desengajamento, dos dois lados. A gestão também não confiava nos trabalhadores, e cada novo episódio de sabotagem confirmava essa desconfiança, fechando o ciclo.

1984: a aposta da Toyota

Quando a Toyota assumiu a operação junto com a GM, a decisão mais arriscada não foi técnica. Foi recontratar quase todo o quadro antigo, incluindo os líderes sindicais mais combativos. Do ponto de vista de qualquer manual de “virada de cultura organizacional”, parecia um erro: por que reconstruir uma cultura nova com as pessoas que, supostamente, eram a causa da cultura antiga?

A resposta da Toyota partia de uma premissa diferente: o problema nunca tinha sido as pessoas de Fremont. Era o sistema de gestão ao redor delas. Antes de a fábrica reabrir, grupos de trabalhadores e representantes sindicais foram enviados para passar um tempo numa fábrica da Toyota no Japão, observando de perto como o trabalho era organizado lá. Não voltaram convertidos da noite para o dia. Voltaram, na maioria, curiosos, e um pouco desconfiados de que aquilo pudesse funcionar do outro lado do mundo.

“Desenvolva líderes que entendam profundamente o trabalho, vivam a filosofia e a ensinem a outros.” — Princípio 9, The Toyota Way (Jeffrey Liker)

Esse princípio resume o que a Toyota trouxe para a NUMMI antes de qualquer ferramenta: uma geração de líderes japoneses que passavam o dia no chão de fábrica, não para fiscalizar, mas para ensinar e observar. Os supervisores americanos que ficaram tiveram que aprender, na prática, um papel que nunca tinham exercido antes.

O que mudou (e não tinha nada a ver com robôs)

Nenhuma das mudanças que tornaram a NUMMI famosa exigiu automação nova ou tecnologia de ponta. As principais foram:

  • O cordão andon: qualquer trabalhador podia parar a linha ao identificar um problema, puxando um cordão acima do posto de trabalho. Em Fremont, parar a linha era falha. Na NUMMI, era a forma como problemas pequenos eram resolvidos antes de virarem grandes.
  • Trabalho padronizado como ponto de partida: cada tarefa tinha uma forma documentada de ser feita, não para travar a criatividade, mas para que qualquer melhoria proposta tivesse uma base de comparação clara.
  • Times pequenos com líder de equipe: grupos de quatro a seis pessoas, com um líder que vinha do próprio time, responsável por apoiar, treinar e ajudar a resolver problemas, não por dar ordens de cima.
  • Símbolos de igualdade: mesmo uniforme, mesmo refeitório, sem vagas de estacionamento reservadas para a gestão. Pequeno, mas carregado de significado para quem vinha de uma hierarquia muito mais rígida.
  • Compromisso (informal, mas levado a sério) de não demitir por ganhos de produtividade: sem essa garantia, nenhuma sugestão de melhoria seria honesta, porque melhorar o próprio processo poderia significar trabalhar para a própria demissão.

Onde o choque cultural quase quebrou tudo

Nada disso foi adotado de forma instantânea ou tranquila. O cordão andon é o exemplo mais claro: nas primeiras semanas, muitos trabalhadores simplesmente não o puxavam, mesmo vendo um problema, porque a experiência de uma vida inteira em Fremont dizia que parar a linha trazia punição, não reconhecimento. A ferramenta existia, mas a confiança necessária para usá-la ainda não.

Do lado da gestão, o atrito foi inverso. Supervisores formados na cultura de “dar ordem e cobrar resultado” tinham dificuldade real em adotar a postura de professor. Alguns conseguiram se adaptar. Outros, simplesmente não conseguiram migrar de um estilo de comando para um estilo de orientação, e deixaram a empresa, voluntária ou involuntariamente, ao longo dos primeiros anos.

O sindicato também não baixou a guarda da noite para o dia. Décadas de relação adversarial com a GM não se desfazem porque um novo logotipo apareceu na fachada. A confiança foi construída pela repetição: quando alguém puxava o cordão andon e um líder de equipe aparecia para ajudar, em vez de para repreender, isso virava uma história contada para os colegas. Quando isso se repetiu centenas de vezes, a história mudou de “eles estão de olho em nós” para “eles realmente vêm ajudar”.

⚠️ Erro Comum (em qualquer projeto de mudança)
Confundir as ferramentas com a cultura. É possível instalar um cordão andon, redesenhar um processo em BPMN ou comprar um software novo numa semana. Construir a confiança de que usar essas ferramentas não vai gerar punição leva meses, às vezes anos, e só acontece através de comportamento repetido da liderança, não de comunicados internos.

Cinco insights de liderança que sustentaram a virada

  • 1
    Confiança se constrói com ação repetida, não com discurso. Cada vez que um cordão andon era puxado e a resposta era ajuda em vez de bronca, um pequeno depósito era feito numa conta de confiança que, em Fremont, estava no zero a zero, ou negativa.
  • 2
    Um padrão documentado é a base para melhorar, não a última palavra. O trabalho padronizado da NUMMI dava a todo mundo a mesma régua. Quando alguém propunha uma mudança, era possível comparar o antes e o depois com clareza, em vez de discutir impressões.
  • 3
    Segurança no trabalho é pré-condição para sugestões honestas. Sem o compromisso de não demitir por ganhos de produtividade, qualquer melhoria sugerida por um trabalhador correria o risco de eliminar o próprio posto. Nessas condições, a resposta racional é não sugerir nada, e foi exatamente isso que aconteceu em Fremont por anos.
  • 4
    O supervisor virou professor de chão de fábrica. Os gestores japoneses que vieram para a NUMMI passavam horas ao lado da linha, fazendo perguntas em vez de dar respostas prontas. Quem tinha o cargo de supervisor mas não conseguiu fazer essa transição deixou de ser eficaz no novo sistema, e muitos saíram da empresa nos primeiros anos.
  • 5
    Mudar uma cultura levou anos de repetição diária. Os números bons da NUMMI apareceram dentro de pouco mais de um ano, mas foram precedidos por meses de adaptação, resistência e ajustes finos, nos dois lados. Não houve um evento único de “lançamento” responsável pela virada, só o acúmulo de centenas de pequenas interações.

O resultado, em números

Segundo os relatos da época reunidos por Liker, o absenteísmo da NUMMI caiu da faixa dos 20% para algo próximo de 2%. A produtividade e a qualidade da planta passaram a figurar entre as melhores de todo o sistema GM, na mesma faixa das fábricas da Toyota no Japão, com a mesma força de trabalho que, dois anos antes, tinha a fábrica considerada a pior dos Estados Unidos.
Dimensão Fremont (GM, até 1982) NUMMI (Toyota/GM, a partir de 1984)
Parar a linhaFalha do trabalhador, risco de puniçãoDireito de qualquer trabalhador (cordão andon)
Papel do supervisorDar ordens e fiscalizarEnsinar, observar, remover obstáculos
Padrão de trabalhoInformal, varia por turno e por pessoaDocumentado, ponto de partida para melhoria
Sugestão de melhoriaPraticamente inexistenteEsperada, com garantia de não demitir por isso
Relação com o sindicatoAdversarial, décadas de desconfiançaReconstruída por comportamento repetido, não por decreto
AbsenteísmoPróximo de 20%Próximo de 2%

O que fica para quem lidera processos

O CBOK v4.0 trata Organização e Cultura como um domínio de conhecimento próprio, separado de Modelagem, Desenho e Transformação, e o caso NUMMI ajuda a entender por quê. É perfeitamente possível redesenhar um processo de ponta a ponta, documentar o novo fluxo em BPMN, treinar as equipes numa tarde, e mesmo assim ver tudo voltar ao formato antigo poucos meses depois. Não porque o desenho estivesse errado. Porque nada mudou na forma como a liderança se comporta no dia a dia.

🔗 Conexão com BPM
Na fase de Transformação do CBOK, a gestão da mudança costuma focar em comunicação e treinamento. O caso NUMMI sugere um ingrediente adicional, mais difícil de planilhar: o que a liderança faz, de forma visível e repetida, na primeira vez que alguém usa o novo processo e encontra um problema. Se a resposta for ajuda, a mudança tem uma chance real de durar. Se for cobrança ou punição, o processo novo dura até a primeira crise, e todo mundo volta ao “jeito de sempre”, só que agora escondido.

✅ Checklist: sua liderança está pronta para sustentar uma mudança de processo?

  • Quando alguém da equipe sinaliza um problema no novo processo, a resposta de quem lidera é ajuda, ou é cobrança por não ter “feito certo”?
  • Existe algum compromisso, formal ou informal, de que melhorias de processo não vão custar o emprego de quem as sugeriu?
  • Os padrões documentados são tratados como ponto de partida para melhoria, ou como regra fixa que ninguém pode questionar?
  • A liderança passa tempo de fato observando o trabalho sendo feito, ou só acompanha pelos relatórios?
  • Se o projeto de mudança parasse hoje, o comportamento da liderança no dia a dia já seria suficiente para sustentar o que foi implementado, ou tudo depende de lembretes e cobranças externas?

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VSM na Prática: Construindo o Mapa As-Is Passo a Passo
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